quinta-feira, 24 de junho de 2010



"Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."

Caio Fernando Abreu


"Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora. Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou."


'Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo,
eu tiro um arco-íris da cartola.
E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior.
Maior que todo mal que existe no mundo.
Maior que todos os ventos contrários. [:
É maior porque é do bem.
E nisso, sim, acredito até o fim. '

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 23 de junho de 2010



' Nunca, jamais diga o que sente
Por mais que te doa, por mais que te faça feliz. :)
Quando sentir algo muito fote, peça um drink. '

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 22 de junho de 2010




"É você quem sorri, morde o lábio, fala grosso,
conta histórias, me tira do sério,
faz ares de palhaço, pinta segredos, 
ilumina o corredor por onde passo todos os dias."
 
Caio Fernando Abreu



"Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém,
 então era extraordinário que ele conseguisse assim perturbar os cantos de meus lábios..."

.Caio Fernando Abreu.


Não me corte em fatias .Ninguém consegue abraçar um pedaço. 
Me envolva todo em seus braços e eu serei o perfeito amor.” 

.Mario Quintana.




“Não sou para todos. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de
surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu
azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos.
Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não
estão por acaso. São necessárias.” 

Caio Fernando Abreu.

sábado, 19 de junho de 2010





Apenas uma maçã

"Nascendo das minhas pupilas, círculos dourados se estendem até o infinito. A maçã ofega em cima da mesa. A primeira percepção é um grito de luz sobre o branco, a presença da maçã, contornos imprecisos contra a janela. Os círculos ampliados concentricamente contêm átomos de poeira em passeio pela manhã. É manhã? Não sei: é silêncio apenas. Fecho os olhos. Somente a memória fala: porque é certo que as pessoas estão sempre crescendo e se modificando, mas estando próximas uma vai adequando seu crescimento e a sua modificação ao crescimento e à modificação da outra; mas estando distantes, uma cresce e se modifica num sentido e outra noutro completamente diferente, distraídas que ficam da necessidade de continuarem as mesmas uma para a outra. O corpo ao lado, vestido, e o movimento que pressinto de recusa. Mas ela não fala. Apenas olha. As pupilas cheias de pequenos pontos dourados. Pontos de fogo, de ouro, de luz. pontos de: não.
- Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo.
Pede um cigarro, um objeto nas mãos torna mais fácil uma conversa dessas, compreende? A fumaça sobe devagar, já não existem os círculos dourados, agora são apenas cinza -a fumaça. Em torno, nada mudou. Até a água esverdeada do aquário parece a mesma. Espero. O peso na cabeça se dissolve aos poucos em contato com o dia.
- Não quero complicar nada. Nunca quis. Também não queria falar. Mas eu não podia simplesmente receber você com a cara de ontem.
Sentada na poltrona ao lado da janela, uma cara de hoje, o cabelo preso na nuca, o casaco do pijama escondendo as pernas, os pés descalços aparecendo. Movimento o corpo sob o lençol, sinto o contato do pano em toda a pele. Estou nu e ela adivinha o meu pensamento. Sorri:
- Não houve nada. Você não precisa se preocupar pelo que não houve. Você estava bêbado demais para qualquer coisa.
O cigarro, a maçã nas mãos: o tempo colocou na testa uma ruga que antes não havia.
De repente sinto medo. Um medo antigo, o mesmo que sentia o menino escondido embaixo da escada, esperando castigos. Um medo e um frio que nascem de alguma zona escondida no cérebro, nas lembranças, nas coisas que o tempo escondeu ao avançar, como se recuando súbito pusesse a descoberto todos os cantos invisíveis, todas as teias de aranha recobrindo velhos muros, os mesmos que tantas vezes tentei escalar sem que houvesse nada depois, nenhum caminho, nenhuma casa. Nada.
EU - Mas detesto analista amador.
ELA - Campo ou bosque ou deserto, qualquer coisa assim, compreende? O importante é que seja ao ar livre. Colabora, imagina. É só um teste.
EU - Um deserto, então.
ELA - Sem nada?
EU - Nada.
ELA - Mas nem uma palmeira?
EU - Nenhuma.
ELA - Um rio, qualquer coisa?
EU - Nada. Só areia.
ELA - E árvores?
EU - Nada.
ELA - Bichos?
EU - Nada.
ELA - Vento?
EU - Nada.
ELA - Água?
EU - Nada.
ELA - E a chave?
EU - Não encontro chave.
ELA - E o muro?
EU - Muro tem.
ELA - E como é o muro?
EU - Antigo, feio, todo descascado, tijolos aparecendo, um pouco de limo, enorme.
ELA - Você sobe?
EU - Tento subir. Várias vezes. Mas caio, arranho os pulsos, sai sangue. Dói muito. Sempre tento subir, sempre caio outra vez. Mas sei que um dia eu consigo.
ELA - E depois?
EU - Depois o quê?
ELA - Depois do muro, o que tem?
EU - Nada.
ELA - Nada?
EU - Absolutamente nada.
ELA - E você, o que você faz, no nada?
EU - Não sei, me desintegro, acho.
ELA - E não dói?
Eu - Não. Não dói.
(silêncio)
ELA - Você já tentou o suicídio alguma vez?
EU - Três, por quê?
ELA - O muro que você tenta subir. O muro é a morte.
EU - Ah.
(silêncio)
ELA - Você agora me vai achar piegas, mas deixa eu perguntar .
EU - Pergunte.
ELA - Você não acredita em amor?
EU - Acho que não. Como é que você sabe?
ELA - Não existe água. A água é o amor.
EU - Ah. Que mais?
ELA - Nada.
EU - Nada?
ELA - É. Nada. Você não acredita em nada. Acha tudo estéril. Vazio. Seco. Um deserto. Nem problemas você tem.
EU - Problemas?
ELA - É. Os bichos.
EU - Ah.
ELA - Nem ideais. Com o perdão da palavra.
EU - Ideais?
ELA - É. As árvores.
EU - E daí?
ELA - Daí, nada.
(silêncio)
EU -Pronto: mergulhou no silêncio oceânico.
(silêncio)
ELA - Você não passa dum puto dum niilista. O diabo é que eu gosto de você paca.
Não mais. Ela apanha o cigarro, joga o toco pela janela aberta. Apanha a maçã.
- Eu ia pintar essa merda. Mas acho que não há mais nada a dizer sobre a droga duma maçã. Nada ao fazer, também A não ser comê-la. .
- É, comê-la. Mas esta está velha.
- Porque eu, meu filho, eu só tenho fome. E esse jeito instável de pegar uma maçã no escuro- sem que ela caia.
- Que saco, hein? Estava demorando.
- O quê?
- A citação. Quem é?
- Clarice Lispector.
Ela não sorri. Houve um tempo em que tive um rio por dentro, mas acabou secando.
EU - É possível um rio secar completamente?
ELA - Claro que é.
EU - Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
ELA - Alguns sim, outros não.
EU - Mas nunca mais?
ELA - Sei lá, acho que não.
EU - Você tem certeza?
ELA - Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
EU - Sabe?
ELA - O quê?
EU - Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.

O dia avança lento. Quem pode deter o avanço do tempo? Alguma coisa vai ser dita ou feita, o tempo prepara meus ouvidos e meu corpo para as palavras ainda em gestação. Levanto as duas mãos, veias estendidas sob a tessitura clara da pele, dedos desertos como se segurasse uma palavra intangível. Anêmona. Varanda. Circunlóquio. Hipérbole. Cantata. Coleóptero. Fazendo um gesto, talvez. Ou falando. Como dói o deserto de dedos desassombrados. Entre eles, a revista, a ilustração: uma orquestra sinfônica. Merda para todas as orquestras sinfônicas. Nos banquinhos, as bundas assentadas, violinos, fagotes. Gozado fagote, não é? Parece um cavalo galopando em cima de nozes, oboés, contrabaixos. E contracimas, não tem, hein? Sopé. E girândolas. Gôndolas girando? Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Não digo. Atrás do aquário, os dois olhos confundidos com os peixes. Será que peixe gosta de maçã? Mas se tivesse ido até o fim, teria voltado? Voltar não será como ir até fim, não st:?fá prolongar o processo em vez de abreviá-lo? Nunca soube a cor exata de seus olhos. Quando os via muito de perto, minha única preocupação era observar o movimento dos pontinhos dourados no fundo das pupilas.
Mas em que cor estavam contidos esses pontinhos, boiando em castanho, em azul, em verde, em negro? O cigarro queima os dedos, fumado até o fim. O sol ilumina um remendo na cortina. A mancha encolhe lentamente.
EU - Você gosta de mar?
ELA - Gosto. Parece uma coisa que eu sinto às vezes por dentro e nem sei bem como é. Nem o que é. Acho que se um dia eu me matasse seria no mar. Queria ir entrando na água bem devagarinho, vestida de branco, descalça, cabelos soltos.
EU - Poesia fácil.
ELA - Vá à merda.

Atira a maçã para cima, recebe-a de novo, indecisa, num movimento que quase descobre os seios. As pernas compridas, um pouco brancas demais. Os olhos talvez meio estrábicos. Mas a cor? Que cor? O gesto antigo de afastar um fio de cabelo inexistente.
- Vá embora -ela diz.
Visto a roupa devagar. Começo a descer as escadas. Não olho para trás. De que adiantaria olhar? De que adianta não olhar?

Vou desviando das poças sujas da chuva de ontem. O asfalto esburacado. O céu cheio de fumaça. E de repente uma maçã espatifada contra o cimento. A carne madura demais espalhada em torno. Não há nada a dizer sobre ela, não passa de uma maçã morta."

terça-feira, 8 de junho de 2010



Oi, eu estou bem aqui na sua frente, mas você insiste em não me ver. Tudo bem, opção sua, cada um enxerga o que quer. O problema é quando você, sem ter idéia de como sou, resolve dar a sua visão sobre mim. Talvez você não se enxergue também, antes de mais nada – e assim me tire por parecida contigo. Errando completamente. Para começar, eu faço questão de ver as pessoas ao meu redor, e isso faz toda a diferença do mundo. Percebo que todos têm algo de especial, estando aí a graça. Percebo belezas que não são minhas, estando aí o prazer.Percebo inclusive você, parado bem na minha frente, desviando seu olhar para lá e para cá, nervoso com a minha presença, estando aí o ridículo.Veja bem, não há o que temer em mim. Não quero nada que seja seu. E não sou nada que você também não seja, pelo menos um pouquinho.Você não precisa gostar de mim para me enxergar, mas precisa me enxergar para não gostar de mim. Ou gostar, e talvez seja exatamente isso que você tema. Embora isso não faça sentido, já que a vida é bela, justamente, quando estamos diante daquilo que gostamos, certo?Não vou dizer que não me irrita essa sua cegueira específica com relação a mim, pois faço de tudo para ser entendida. Por todos. Sempre esforço-me ao máximo para que isso ocorra, aliás; então, a sua total ignorância a meu respeito, após todo esse tempo, nós dois tão perto, mexe, sim, levemente, com a minha paciência.Se for essa a sua intenção, porém, mexer com a minha paciência, aviso que anda perdendo sua energia em besteira, pois um mosquito zumbindo em meu ouvido tem um efeito semelhante. E, se me dou ao trabalho de escrever esta carta para você, é porque sei que você também não será capaz de enxergar o que há nela.Explicando melhor: preferiria que você me esquecesse, mas até para poder esquecer você vai ter que me enxergar. Enquanto não me olhar de frente, ao menos uma vez, ao menos por um segundo, vai continuar assim, para sempre, fugindo sistematicamente da minha imagem – um escravo de mim, em fuga constante, portanto.Pode abrir os olhos, vai ver que não sou um bicho-de-sete-cabeças. Sou bem diferente de você, como já disse, mas isso é ótimo. Sou melhor que você em algumas coisas, pior que você em outras – acontece. No que eu for pior, pode virar para outrolado; no que eu for melhor, cogite me admirar. “Olhos nos olhos, quero ver o que você faz... ”* Sempre quis cantar isso para alguém. “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz...”*Pronto, um sonho realizado. Já estou lucrando com a nossa relação, só falta você. Basta ver o que eu posso lhe mostrar e enxergar o que eu posso ser para você.

* Trechos da música OLHOS NOS OLHOS, de Chico Buarque *


Fernanda Young.


segunda-feira, 7 de junho de 2010



(...) Nunca sei o que se passa
com as manias do lugar
porque sempre parto antes
que comece a gostar
de ser igual, qualquer um
me sentir mais uma peça no final
cometendo um erro bobo, decimal'.

Pato Fu - Antes que Seja Tarde *-*


(...) Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

sábado, 5 de junho de 2010


~ Pato Fu - Simplicidade ~



Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha
Mais sincero o bom dia :D


Mais mole a cama em que durmo
Mais duro o chão que eu piso
Tem água limpa na pia
Tem dente a mais no sorriso



Busquei felicidade
Encontrei foi Maria
Ela, pinga e farinha
E eu sentindo alegria


Café tá quente no fogo
Barriga não tá vazia
Quanto mais simplicidade
Melhor o nascer do dia (
)



sexta-feira, 4 de junho de 2010




(...) É duro dizer , mais eu nunca sofri mais de dez minutos por amor , Ninguem nunca mereceu o meu choro , Nem a falta de apetite. Vivo de músicas românticas & não sou romântico. ()
 (Cazuza).