'Era um daqueles dias de ventania descabelada da primavera gaúcha, e Déa
Martins me convidou para ver o pôr-do-sol na Ponta do Gasômetro, na
beira do Guaíba, onde os Oxuns se encontram. Sentamos na grama, ficamos
olhando o céu, o rio, o horizonte verde das ilhas. (...) O vento espalhava rapidamente as nuvens pelo céu. Dissolviam-se em
fiapos primeiro brancos, depois rosa, depois vermelho cada vez mais
púrpura, até o violeta, enquanto o Sol ia-se transformando aos poucos
numa esfera rubra suspensa. De repente observei: certa nuvem não se
mexia. Apenas uma. Parada, branca, enorme, eu olhei desconfiado. E tinha
uma forma inconfundível, qualquer criança veria. Desviei os olhos,
falei sem parar, as outras nuvens continuavam a esfiapar-se. Aquela,
não. Então, com muito cuidado eu disse: “Déa olha lá aquela nuvem.” Ela
olhou. E disse: “Meu Deus, é um anjo.”
Sem gritaria, ficamos olhando a nuvem-anjo. Ninguém mais olhava para ela embora, apesar de discreta, fosse um escândalo.
Quanto às outras nuvens, continuavam a se esgaçar, virando sem parar elefantes, camelos, colinas, nuas mulheres barrocas, como é próprio da natureza das nuvens. Mas aquela, aquela uma não se transformava em nada diferente dela mesma, apenas aperfeiçoava a própria forma. Quer dizer: ficava cadavez mais anjo.' (...)
Sem gritaria, ficamos olhando a nuvem-anjo. Ninguém mais olhava para ela embora, apesar de discreta, fosse um escândalo.
Quanto às outras nuvens, continuavam a se esgaçar, virando sem parar elefantes, camelos, colinas, nuas mulheres barrocas, como é próprio da natureza das nuvens. Mas aquela, aquela uma não se transformava em nada diferente dela mesma, apenas aperfeiçoava a própria forma. Quer dizer: ficava cadavez mais anjo.' (...)
Caio F.

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